terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Sobre o sonho, ou os sonhos



Olá, Sonho!!!... Academicamente e de um modo muito rudimentar já que, não pretendo reproduzir nenhum conceito freudiano ou de outra qualquer corrente da psicanálise, no meu entendimento, o sonho, é uma manifestação, penso que apenas humana que, se processa ao nível do subconsciente, ou numa outra área que poderemos chamar de "limbo do consciente".
Os sonhos reflectem, dizem os entendidos, frustrações, desejos recalcados, fantasias inalcançáveis, ilusões que podem "enquanto pseudovividas" servir para o alivio de tensões internas ou até mesmo como uma forma primária de esperança, a maior parte das vezes apenas alicerçada numa fé de que "um dia seremos compensados" por algumas das condições existenciais, menos favoráveis que, nos tocaram em "sorte/acaso"

E o sonho revelou-se á Natureza Humana a via mais fácil e necessária ao seu equilíbrio emocional.

Este é aquele sonho que todos nós pressupomos acontecer na cama. É uma manifestação transversal a toda a sociedade.Seria interessante saber, se possível, qual a classe social que mais sonha e quais os objectos dos seus sonhos. Eu não penso fazê-lo. Não está nos meus horizontes e, não consideraria como um sonho a sua realização.·
A outra classe de sonhos é aquela que resulta de um estado interior que faz do inconformismo a existência de alguém. Existir é nestas circunstâncias, muitas vezes sonhar.

Nesta febre de alcançar um objectivo, o seu objectivo, o sonhador, subalterniza, muitas das categorias essenciais da realidade: talento, classe social, género, formação, finanças que, dependendo do sonho, todas ou algumas delas, em conjunto, são condição para que o sonho se transforme em realidade ou, pelo contrário, pela ausência de condições objectivas, o sonho, emerga com a natureza de devaneio e, assim fica existindo, no limbo das possibilidades ( se,)... ou seja condicionais.

Se assim for, o sonho é reservado para um tempo e um espaço que o sonhador, sentirá adiado, até que por exaustão o deixe aninhar-se no sítio das ideias/sonhos por concretizar.·

Tenho para mim que, a maior parte destas realizações muitas vezes apelidadas de sonhos, são apenas objectivos que hoje se vulgarizaram socialmente: como o curso superior que, de facto já foi, em tempos e para alguns um verdadeiro sonho de vida alcançado. Mas estes são os sonhos dos pais. Da família. Que faz esforços e descansa as ansiedades quando tudo o que queremos é perceptível no imediato. Porque, quase sempre foi assim.

E é nesta esfera do "desejo" necessariamente realizável, elevado á categoria de sonho, pelo qual pautamos em conjunturas sociais e de vida difíceis, os nossos relativos horizontes, louváveis sem dúvida e, razões de felicidade quando alcançados.

Mas questiono-me se pertencem à categoria dos sonhos.

Sem ser arrogante e dando o devido valor à relatividade e á sua importância para a valoração do conceito de sonho, penso que estas realizações que muitos nós, encaramos como tal, se ficam pela esfera dos desejos mais ou menos realizáveis.

f.


domingo, 6 de dezembro de 2009

Festinha



Faz-me uma "festinha" no rosto
Como prelúdio de um abraço
Como chão para um beijo
Com ternura por dentro do olhar


Depois(...)eu concebo um imaginado momento


Festinha= toque afectuoso para um momento de empatia       



sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Um dia na vida de uma mulher



Despertou de um sono longo. A realidade chegava-lhe ordenada pelos sentidos. Ainda de olhos fechados o olfacto não transportou até si nenhum perfume que atestasse outra humana presença. A epiderme reclama-lhe o toque com intensidade de carícia, o beijo matinal no ombro direito, a junção do corpo dele com o seu, seguido de um abraço que inexoravelmente a introduziam no Mundo. Eram assim inevitavelmente os despertares aos sábados de manhã depois de ter conhecido o Bernardo, seu namorado, havia pelo menos um ano. Dois "specimens" lindos, com glamour, que desafiavam pelos bares e gafieiras do costume, os incontinentes caçadores de sexo das soirés lisboetas. Aos olhares explícitos daquela tribo de oníricos nunca tinham sido capazes de conter as sensuais coreografias que exprimiam na batida repetitiva dos sons da House Music, ou no “caliente” abraço que o bolero exigia, enquanto arrastavam os corpos colados pela pista ao encontro da nota musical que coroasse o extâse que adivinhavam invadi-los, e que se cumpriria com a cumplicidade mágica de uma atmosfera sombria que lhes outorgava a natureza de silhuetas. 

Recusava acordar. Sabia que esta negação para a vida se manifestava sempre assim depois de um “desencontro de afectos”. Mas desta vez sentia-se “incompleta” e por isso não queria desvelar-se para um dia que lhe faria sentir o peso da solidão. Estava “amputada” do afecto com mais empatia que tinha vivido estes últimos tempos. E, obviamente, sentia que não eram só as noites de enlevo e orgasmos que, em tão pouco tempo, já eram saudades, mas era tudo o que demais compunha a vivência com este companheiro. Muitas vezes os “olhares” para a realidade sobrepunham-se de tal maneira, e sabia não serem estes momentos de perfeita sintonia, uma refinada gentileza dele, que concedia ao espírito, apesar da sua sólida formação materialista, a veleidade de supor uma qualquer teoria acerca das almas gémeas.
Nesse revelado momento fazia sempre por esquecer a sua lógica de pensamento para não beliscar a harmonia e a felicidade experimentada. Mais tarde, para “explicar” aqueles momentos de existencial perfeição, sem trair a sua formação, enquadrava-os nos fenómenos empáticos que os afectos potenciam. Também a estética não os dividia apesar da diferente e natural, dizem, sensibilidade dos géneros. Discutiam livros e cinema sem exaltar-se e em total liberdade de opinião.

Estava triste porque este tempo de feliz mundividência estava prestes a desmoronar-se por um ataque de imatura “ciúme” que uma tendência possessiva inflamou ainda mais. Sentiu a liberdade, a sua, “encolher” quando ele “soltou” um discurso sobre o compromisso que pretendia, percebeu ali mesmo, organizar as suas emoções. Para ela as relações eram, sempre tinham sido, “edifícios” estratificados por experiências afectivas e emocionais, no qual o ajustamento das mesmas determinava o cimento da sua estrutura e a sua permanência. Percebia o incómodo, o dele, porque o piropo de um bem-apessoado transeunte da gafieira tinha estimulado nela uma resposta no mesmo tom, seguida de um curto “briefing” de insinuações, entrecortadas com ritualizadas coreografias de côrte. O irreverente “beicinho” do Bernardo foi por si apercebido sem nenhum sentimento mesquinho de superioridade. Sentiu um enorme carinho pelo seu indiscreto momento de insegurança. Gostava da pessoa de Bernardo. E gostava do homem que ele incorporava. Mas deu consigo numa das mesas da gafieira a “engolir”, por respeito, aquele inoportuno e redutor discurso acerca das formalidades que ele entende deverem fazer parte das suas relações afectivas, e que acabavam de ser desvalorizadas pelo comportamento dela.

Ficou triste pelo que entendia ser um precedente ao qual não poderia ceder. Antevia que se concedesse, a Bernardo, aquela perspectiva estaria a submeter-se a um código moralizador do seu comportamento afectivo que não subscrevia e a mutilar a sua “livre” natureza para viver emoções que, a seu ver, não punham em causa os alicerces da sua relação com ele. Sabia, sobretudo, que o valor e a permanência da sua relação com Bernardo resultavam do somatório e da intensidade das experiências que viveram e que aquele, no seu entender, insignificante episódio não poderia corromper esta concepção; para si um credo, "de que as relações afectivas permanecem porque o seu edifício é estruturado pela sedimentação de diferentes experiências com capacidade para se ajustarem entre si”.
 Daí entender que aquele julgamento a que Bernardo a tinha submetido se revelava como uma experiência desajustada de todas as anteriores. Pressentida a amargura que esta rotura causaria aos dois, o afecto que lhe tinha, enorme, desaconselhava-a a que num impulso radical ditasse o fim daquela relação, ali e naquele momento, porque a amargura não lhes daria sossego e a tristeza encontraria motivos para se instalar por algum tempo. Duvidou sobre qual a opção mas correcta a tomar.
Queria compreender se aquele discurso aparecia como recurso à justificação de um despeitado momento ou se revelava parte de uma mentalidade por si desconhecida. Entendeu voltar sozinha para casa e por antecipação começou a viver, ali mesmo, a experiência de solidão que, no seu apartamento e na sua cama, se tornariam mais intensos naquela noite de sexta-feira.

No dia seguinte, na manhã de sábado, encontrava-se na cama pressionada pela decisão de ter de ressuscitar ou aniquilar uma relação que ontem tinha suspendido. Agitada enquanto “vivia” por remake o sucedido, sentiu-se desconfortável na cama. Uma atrevida ponta de ar invadiu-lhe a atmosfera quente dos lençóis e causou-lhe um “frissom” no corpo, agravando ainda mais o desconforto do seu melancólico e triste despertar. Abriu por fim os olhos e a claridade que a manhã, já alta, tinha lançado para dentro do seu quarto feriu-lhe o estado de sonolência. Algum calor, impróprio do Inverno, fazia-lhe adivinhar a vida lá fora, manifestando-se em desportistas de fim-de-semana mobilizados no combate à adiposidade construída em empregos sedentários que lhe penalizam o corpo e a estética, numa sociedade que paradoxalmente tem nas diferenças humanas um valor democrático, mas que obtusamente insiste por influência de uma fanática filosofia da “normatização” veiculada por alguns midia, em construir modelos para a standarização de tudo e de todos nós.
Reconheceu neste pensamento uma visão de crítica militante de todo o pensamento ou filosofia que se aflorasse redutora das escolhas individuais de vida que não atentassem contra a estabilidade da ordem democrática.
Mas era do mais elementar bom senso reconhecer também o esforço meritório daqueles desportistas de fim-de-semana, por influência, ou não, do discurso mediático. Sobretudo porque era evidente que a actividade física é boa para a saúde.

Percebeu entretanto que já nem mesmo o conforto da cama a compensava. Ficar ali significava não contrariar a pulsão masoquista destes momentos e enredar-se no sucedido. Energicamente levantou-se como se a vida a puxasse para dentro de si e dirigiu-se ao chuveiro. Sentiu que a temperatura quente da água se revelava como a primeira compensação daquele dia. Apostou em si e produziu-se sem saber que um convite percorria à velocidade da luz os fios do telefone para se anunciar num DRING. Atendeu. Do outro lado um colega e amigo revelava enfaticamente a mensagem relembrando-lhe que hoje se celebrava o jantar da sua agência de publicidade. Sociabilizar-se era tudo o que menos queria naquele momento. Olhou-se ao espelho e gostou de si. E associou ao seu embelezamento uma premonição qualquer que sentia positiva. Respondeu entusiasmada que sim. Que estaria presente. Passou novamente pelo espelho para que a imagem, de si, ali reflectida abrisse brechas na sua tristeza e lhe colasse no espírito confiança e alegria. Muita alegria.

Evitou o elevador para sair do prédio. Quando chegou à rua já a Lua com o seu exército de estrelas tinham encetado uma perseguição ao Sol para instalarem a noite no céu. Por impulso olhou para o firmamento na procura de uma estrela que sentisse sua e que brilhasse, em si, toda esta noite. A empatia não se estabeleceu. Na dúvida segurou bem dentro do peito a positividade do momento. Quando saiu do carro, já no destino, constatou que o néon tinha ocupado toda a cidade.

Mostrou-se à chegada e durante o convívio receptiva aos "piropos". Mas soube também perceber os excessos. Tinha a certeza que nem tudo, naquelas exuberantes demonstrações de afecto, era inteiramente verdade. Mas não deixou de estar à altura das insinuações. Era natural nela a adesão aos jogos de palavras eivadas de subliminares propósitos. Mas entendia-os como um modo que os seres inteligentes encontraram para tornear, sem inconveniência, alguns formalismos culturalmente ainda “vivos” e actuantes em muitas mentalidades. Como a do Bernardo agora revelada. Por isso ele não entendia como é que estes jogos podiam ser apenas prazeres intelectuais, carícias egocêntricas e por aí ficavam sem, imediatas, consequências. Bernardo defendia que as insinuações disfarçam, em menor ou maior grau, objectivas intenções. Mas concretizáveis, defendia eu, apenas e só pela vontade consonante dos intervenientes. E, para ela, os afectos onde estes prazeres insinuados se realizam eram, muito concretos e sempre experienciados.

Na despedida alguns beijos não encontraram o local desejado e alongaram, para uma sublimação, a sua permanência no "destino" possível que lhes reservou no rosto.
Alguns olhares insinuavam um desejo aceso nas entranhas que teriam que adiar. Porque nessa noite, a excitada predisposição libidinosa não iria cumprir-se em sexo. Pelo menos consigo como partenaire. Ninguém ali tinha acordado os seus duendes para brincar aos "amantes”. O momento tinha tornado tudo demasiado óbvio para todos. A indecisão parecia ter tomado conta das vontades e suspendido o tempo. As insistências para que ficasse foram infrutíferas. Com um cordial e aberto sorriso finalizou a despedida deixando alguns apontamentos em aberto para mais tarde confirmar. Em seguida desprendeu-se suavemente da sua voz um cumprimento de boa noite que se elevou-se no ar para apaziguar o cosmos e, todos e cada um por si, pensaram num destino para aquela noite. O ronco dos automóveis "estilhaçou" o silêncio e a claridade à solta dos faróis perfurou a noite para desvendar o segredo dos caminhos. Ela empreendeu o rumo de casa como o desejado destino.

No regresso o tempo da viagem pareceu-lhe suspenso e sem atritos de qualquer ordem. A silhueta do seu "refúgio", como que por magia, saída das trevas, projectou-se num horizonte próximo. Bocejou dentro do carro. Minutos depois dava o primeiro passo dentro do seu apartamento. Voltou-se, fechou a porta, e “apalpou” o espaço com um olhar de reconhecimento. Sentiu um carinho imenso e rememorou, num ápice, a história de todos os adereços que eram parte de si. Da sua vida ainda curta de mulher adulta e emancipada. Detectou neles muita da sua identidade. Afinal não estava sozinha. Projectou os braços apertando-os contra o tronco num “abraço” possível a si mesma e sentiu que tinha construído um instante de felicidade. Estendeu-se no canapé da sala fechou os olhos e deixou-se ir com o turbilhão de pensamentos que reclamavam uma ordem, a sua, e pressentiu que não mudaria. Embalou-se nesse jogo com as ideias enquanto o sono cada vez mais presente lhe "roubava" a consciência. Não quis resistir. Preferiu esperar que o Sol a chamasse no outro dia. Boa noite. Murmurou para si. E não registou mais nada na memória.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

A propósito da missa Miserere Dei de Gregorio Allegri


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(...) eis uma representação que reconheço de exaltação de  uma enorme virtude que é a humildade. Tal a devoção que lhe está associada nesta missa. 
Reconheço ainda a sua enorme beleza cuja inspiração só a ideia de comunhão com o transcendente seria capaz de a inspirar. Contudo não posso deixar de viver e de me interrogar sobre o que considero um paradoxo e que me inquieta, porque sendo eu um irredutível militante dos homens e das mulheres a quem imputo toda a beleza e toda a miséria e a sua consequente transformação na História, não entendo o porquê de não sermos nós (os humanos) os inspiradores e os objectos de tanta e tão harmoniosa beleza ...

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Virtual partilha



Do meu comentário para o seu comentário. Dito assim é como se as palavras ditas/escritas tivessem irmanado sensibilidades que vivem e se exprimem nesta partilha de recados e, que nos surpreendem com mimos, como um pressuposto desta virtual amizade. Ao mesmo tempo que atribuindo "anima/alma" aos comentários transformando-os em entidades independentes, iludimos (eu e você) a vigilância do ciumento Big Brother, desta "esquizoide" aplicação. Creio que, desta maneira, os ciúmes, essa aberração sentimental, não vão impedir-nos de realizamos o objectivo de nos podermos brindar com uma escrita "anexada" de mimos" A ver vamos. Enquanto meto estas palavras em carreirinha para que "ordenadamente" as ideias cheguem até si, repasso o trecho musical do Miles Davis que da primeira vez o "ciumento", nós já sabemos quem é, impediu de chegar aos seus ouvidos construindo uma atmosfera de emoções suaves e carinhosas que a envolveriam, num outro tempo, para onde só a música é capaz de nos levar. No momento em que lhe escrevo este "recado" no ar misturam-se os sons que, "soprados" pelo trompete, desafiam a gravidade e mantêm-se suspensos por algum tempo; a flutuar. A sua intrínseca matemática, gere-lhes a vida; breve mas intensa. Em cadeia e em interacção, atravessam o espaço, deslumbram-nos por segundos e, depois morrem como estrelas cadentes que se perpetuam na (nossa) memória por via das emoções exaltadas. Os sons/a música inscrevem-se nos destinos de naturezas trágicas como a beleza. E só têm sentido nesse tempo efémero. Tal é a necessidade do seu transcendente equilíbrio, da sua fundamental harmonia. Fora dum tempo breve toda a beleza desafia as limitações humanas para a entender. Fora desse tempo breve os sons transformam-se em ruidosas sonoridades que ferem o ar. Aqui, em minha casa, a ordem dos sons continua a fazer música. Continuo a desfrutar da sua beleza. É uma atmosfera de prazer envolvente. Suspendo a escrita para corresponder com uma trinca num, aparentemente, delicioso pêssego que tenho ao meu lado. Encho a boca de uma textura vegetal e aromática que me mobiliza o sentido do gosto e a mistura com os outros sentidos numa atmosfera já excitada pelos sons. É um carrossel de pequenos prazeres a que não sei pôr ordem. Paro. Tento encontrar o princípio e o fim de cada um destes prazeres. Não consigo. Volto a tentar. Resolvo parar a escrita e dedicar-me a estes momentos de prazer intenso que se completam e me completam.

As últimas notas do piano sobem lentamente deixando adivinhar o fim da música e a amputação deste meu (delicioso) momento. Acabou. Como prometido vou passar-lhe este testemunho. Este mimo. Como convencionamos chamar-lhe. Oxalá também em si ele encontre a receptividade emocional que o faça viver mais algum tempo.

Amizade e virtuais contactos


(escrito em 29 de Abril de 2009, como resposta á questão de como seria o Mundo sem amizade)
  … Sem amizade (sincera) a vida seria um buraco negro cega de afectos e com um Eros mutilado pelo impulso sexual(...) mas uma vida que (pode adivinhar-se) possível a prazo

(escrito em 1 de Maiol de 2009, como resposta á questão  " como me imaginas")
... Imaginar-te a partir das trocas de recados que tivemos, só poderia resultar num perfil saído de uma primeira consulta de psicologia, de um esboço diagnosticado por um consultor após uma entrevista para um emprego, de um sentimento simpático por um sorriso matinal que se esboçou, no entretanto, dos (nossos) sentidos que se cruzaram pela tua entrada e a minha saída de um café, onde rotineiramente as bicas nos esperam, como alento para mais um dia de trabalho, etc , etc, etc, ... sei tão pouco de ti, mulher, que só por um exercício de masoquismo e por algum virtual despeito, que não existe relativamente a ti, poderia arriscar a imaginar-te, tu que dás (vida real) ao nosso virtual contacto.
Imaginar, adjectivar, como tu fizeste sobre mim, diga-se, no exercício e no conforto que a liberdade virtual te confere, não o farei,... estou constantemente a ser interrompido que ainda me repito na prosa que te escrevo. Se acontecer, não leves a mal, - dizia eu que não farei esse mesmo exercício para corresponder à tua curiosidade e para deleite do teu ego, sem ofensa.
Todos temos este fetiche de querer saber o que os outros pensam de nós, como nos imaginam, para reforçar a nossa auto-estima, e para aferir, de algum modo, o significado das nossas opções, mas também porque a alma gémea, essa recorrente aspiração que nos vem do desejo de ser feliz pela justa medida em que a harmonia deve de ser a sustentação dos afectos, do amor que nos apoquenta a existência, e que aqui, no virtual contacto, pode estar do outro lado á distância de alguns fotões que se traduzem primeiro em informação depois em afecto.
... mas como diz Joaquim Sabina que eu respeito e por quem tu te enamoras-te, "que no te vendan amores sin espinas"... este foi um aparte, creio que estou a sair do objectivo da tua pergunta.
Voltando à questão que é a de corresponder à tua curiosidade para saberes como te penso/imagino, dir-te-ei que alguma coisa te desajusta do quotidiano, das sociedades, do microcosmo dos teus amigos e que na poesia, na escrita por ti, e na que lês de outros poetas procuras algo me mais "substancial, de mais essencial" que dê razão a um sentir que se choca com a materialidade de um quotidiano que parece inquietar-te a vida; talvez porque essas inquietação representem a necessidade e a "convicção" de que a vida, a que tu entendes mais plena, esteja para além destes fluxos quotidianos, da organização das sociedades ocidentais onde tudo se elabora, numa lógica de mercado, pronto a consumir, como contrapartida pela colaboração profissional numa empresa e pelo acto de votar para animar o sistema. A distância no sentido mais poético e mais afectivo instalou-se porque aparentemente sobrevive-se (sem estar presente, o amigo, o amor, a participação) – todo este espaço é muito preenchido por outras muitas coisas que se podem fazer sozinho.
Almas, como a que humildemente penso ser a tua, com alguma saudade (da sua vida) pela proximidade à poesia que revelas, são imensas, e só por esta, chamemos-lhe circunstância me permito esta "generalização" ... O mais sobre ti nem a idade me atrevo a calcular ainda que a adição de (20+25) não me pareça difícil. Tudo o que, pouco consubstanciado nos nossos recados, eu me atrevê-se a criar/imaginar acerca de ti só poderia ter acontecido num exercício de escrita, e na tentativa de "ajustar-te" a um qualquer estereótipo, com dois ou três detalhes que eu gostaria que lá estivessem. Mas por enquanto nenhuma ninfa me visitou a propósito ...

Mulher de (+ ou -) 45 anos, à procura de qualquer sentimento que não seja intenso... etc, etc, etc

Os beijos que entenderes tomar, em dose, para te satisfazerem hoje

Paris


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Olá minha querida amiga, Paris é um pequeno cosmos, que a Liberdade e os movimentos que a germinaram escolheram para se cultivar. Depois é chique, charmosa  e coquette, mas também é libertária, solidária, política e revolucionária, no sentido mais amplo do termo, e desde de sempre foi (muito) cosmopolita.
Nesta planície à beira de la Seine, sempre foram acolhidos os expatriados, os congeminadores de revoluções, os idealistas, e os imorais, ou (amorais), os amantes, e as meretrizes, que viviam escondidos ou foram excomungados de todas as urbes, da Europa, onde o bafiento odor da moral cristã não lhes deixava recanto para sobreviver ou as ideias políticas afrontavam a ordem estabelecida.


A libertinagem e a contestação política estão na génese da projecção desta cidade no Mundo Europeu, e não só. Mas esta é a parte mais mundana da identidade de Paris. Montmartre, o quartier do deboche, com o Pigalle a seus pés, tornou-se, não o podiam supor, os zeladores dos costumes da época, um dos ex-libris da Paris libertina que toda a gente quer percorrer, na esperança de reconhecer um vestígio, no mínimo uma imitação, muito descaracterizada do bairro de perdição, onde Henry Lautrec e mais tarde Picasso, entre outros artistas de renome, se "compensaram" das batalhas a que a arte e o acto da criação os obrigava. Foram tempos da Paris/Burguesa.

Lá em Paris, a liberdade e o enamoramento, l'amour, sempre foram cultivados desde de muito cedo como expressões inadiáveis da natureza humana, e necessária à felicidade, harmonia, e plenitude dos seres.

Esta é uma visão, (um pouco) por dentro da História que projectou esta cidade no Mundo. Reconheço, agora que te escrevo, que esta mirada não está isenta de emoções vividas, manipuladas pelas memórias de quem nela peregrinou alguns anos. Sim. Eu vivi alguns anos em Paris. Tenho-a nas veias. Sem remorsos de não me encontrar por ali mas, por vezes, atraiçoado pelas saudades, essa expressão, que traduz a “ausência” no sentir tão lusitano. Outros tempos. Outra cidade, social e politicamente falando.

A última vez que "namorei" com ela, Paris, foi no zénite de 2008. A azáfama do Natal fazia sentir-se por todo o lado. A crise anunciava-se já  no crescendo do desemprego que comprometia equilíbrios precários e vidas difíceis entre a comunidade cada vez maior de imigrantes africanos. O Inverno e o frio que o acompanha, punha a nu todas as dificuldades que muitas destas pessoas plantavam na esquina de uma qualquer boulevard ou de um qualquer bistrôt, onde as mágoas e os azares sempre foram argumentos para tocar o coração daqueles a quem, por enquanto, a crise lhes tinha passado ao lado. Mesmo confortados por esta solidariedade de café, o desespero, a injustiça colada à pele, a desorientação por não encontrar o culpado, iam fazendo vitimas entre os mais desprevenidos, no Metro, nas gares de comboio, nas esquinas mais solitárias, nos trajectos, daqueles estavam em actividade, entre a casa e o trabalho, nas rotas de algum turista mais explorador do espaço que apareceu, sem ser convidado, nos lugares que a pobreza e a marginalidade territorializaram. 
Ás vezes reflectia-se uma espécie de medo, nos rostos das gentes, ao fim da tarde quando o fluxo nas artérias tinha menos vida e a cidade se aninhava para receber a noite fria.

Eu tinha uma agenda plena e grandes expectativas neste reencontro. Culturalmente deleitei-me com tudo o que a minha pequena estadia me permitiu - Quai D'Orsai, Louvre, Maison de Picasso, Museu Dali, L'Horlogerie, Cemitério do Père L'achaise, onde está sepultado Jim Morrison dos Doors entre outros vultos da cultura e da política; Casa Museu de Rodin, Conciergerie, Les Invalides, Casa Emmanuel Dèschamps; Centre Pompidou, e muitas permanências no Quartier Latin, de gratas memórias, em Montmartre, no Sacré Coeur,  e ainda alguns passeios pelo Quai Voltaire entre Chatelet e Notre Dame.

Inicialmente estranhá-mo-nos, eu e a cidade, depois de tanto tempo sem nos vermos. Tive a estranha sensação de que ela me queria "atrapalhar", confundir, fazendo-me sentir um estranho que tem, obrigatoriamente ,que cumprir um ritual iniciático de aceitação.Tactear-lhe o corpo, aventurando-se nas suas artérias, para ser aceite como um dos seus. Duas horas bastaram para, depois de entrar nela, nos reconciliar-mos. E apesar das mudanças na minha ausência que me frustraram os "imprevisíveis" rendez-vous com que Paris me brindou sempre que a visitei, constatei que a "patine" de encanto que envolve esta cidade tem a natureza perene das belezas que nem o tempo se atreve a beliscar.

Contei-te o meu "olhar e o meu sentir" deste encontro com Paris. Alonguei-me, quiçá de mais. Mas todos os meus amigos sabem que não faço segredo do meu amor incondicional por esta urbe e pelos seus encantos.

Beijo.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Pro(vocações) de amiga



Olá Querida amiga; … estás sempre a provocar-me. Eu não o mereço. Pedes-me comentários a situações, para ti inaceitáveis, numa tentativa sibilina de me apanhar em contradição quando sabes que, independentemente de eu procurar ter um olhar mais abrangente e tolerante, sobre muitas questões polémicas, não hesito em condenar estas práticas de violência de alguns homens sobre as mulheres.
Podias ter elaborado um questionário. Responder-te-ia com a mesma coerência com que faço o comentário as estas imagens e vídeos, que me envias-te e aos quais recorres para gritares a tua indignação.
Pelo o que entendo da linguagem "subjacente" ás imagens e vídeos que partilhas é muito recorrente a temática da liberdade da mulher. Alguns deles de uma forma poética, como devem ser sempre a linguagens que pretendem ser representativas de tão inalcançável designo, como o é a liberdade … e eu acrescento para ambos os sexos.
A liberdade como a felicidade, de tão relativas, traduzem (momentos) fugazes de harmonia cósmica em nós, que nos brindam em momentos muito particulares da nossa existência, para logo nos desinquietarem na procura de outros idênticos momentos.
 O paradoxo é quando (viver) a liberdade constitui um suplício.
Por isso afirmo que, é sempre preferível viver uma (liberdade relativa) que nos permita sentir e estar no caminho para uma qualquer liberdade.
A outra, a liberdade absoluta é um mistério que flutuará sempre no limbo da mais românticas das aspirações humanas. E ainda bem. Porque se por qualquer sortilégio, um dia, este utópico desígnio se concretizasse, na alma de quem o conseguisse instituir-se-ia o absoluto vazio... porque supostamente, quem alcançasse essa condição, mutilar-se-ia do “sentido” da liberdade como horizonte tão necessário e, sempre determinante, para instituir e manter os compromissos, de que se faz a vida.
Nessa condição, de absoluta liberdade, o homem ou a mulher, impossibilitados de estabelecer compromissos na vida, perderiam o supremo sentido da sua própria existência. Não ligues, querida. Foi uma reflexão, talvez, desviada do contexto
Regressemos pois, ao nosso objecto de reflexão: as imagens violentas que, me enviaste e que, representam um atentado contra a liberdade e a dignidade das mulheres em concreto. É óbvio que têm de ser objecto de crítica. Em particular quando este recurso à violência por parte dos homens toma foros de "normalidade" nas mentalidades contemporâneas.
Sem deixar de ser sempre condenável, qualquer recurso à violência num contexto das relações, suponho que, já em deficit de afectos, é interessante, para abrir esta discussão, não nivelar estas manifestações pelo mesmo diapasão.
Nem toda a agressão, no meu entender, constitui o princípio da sua normal instituição. Não te exaltes. Não estou a dizer nada de indefensável. Um impulso agressivo, não é uma prática sistemática de porrada – não gosto do termo mas é aquele que melhor traduz essa indignação, que é a violência sobre a mulher, mostrada nestes teus vídeos –  e, nem sempre se manifesta da mesma maneira e em condições de ânimos exaltados pelo “desamor” de um pelo outro.Mas sempre condenável. Sem dúvida.
Qualquer acto de violência física (refiro-me em particular a este tipo de violência porque é sem duvida o mais representativo no contexto das relações heterossexuais) é sempre atentatório dos direitos e liberdades das mulheres e, também da sua dignidade. Mas, o que mais nos deve preocupar, é quando um qualquer homem conseguiu "institucionalizar" este comportamento na relação e, a (ainda) sua companheira, tem dificuldades em escapar-lhe.
O bofetão "extemporâneo", sempre condenável, é por vezes num contexto de imaturidade afectiva provocada pela insegurança o modo mais brutal e primário de dizer; não me abandones. Nós os homens, quase todos, temos o Édipo mal resolvido. À imagem da nossa ligação com a mãe, aceitamos que as mulheres nos critiquem, mas é-nos insuportável que elas nos abandonem e nos deixem de proteger. E muitas vezes por cultura machista ou não, o modo como agimos para subverter a nossa fragilidade, não assumida, é a agressividade. E gritamos, ameaçamos, agredimos … Ao que tu me obrigas querida amiga para defender esta perspectiva com alguma coerência. Mas tu conheces-me. Sabes que sou polémico e que este facto nunca me retraiu de defender os meus pontos de vista. Eu sei. Nem sempre é fácil esclarecer algumas das posições complexas que teimo em defender. Mas os seres humanos, pelo menos, como eu os entendo e sinto têm na sua alma muito pouco de maniqueísta. São muito mais paradoxais. Usando uma metáfora para ilustrar a natureza humana, o quero dizer é que, as pessoas são sempre muito mais ao vivo e a cores do que a preto e branco. Não te parece?...continuando a reflexão e para concluir …Penso que todos desejamos viver as relações amorosas muito para além da dimensão humana
E esta é um a”ilusão” que tu sabes que defendo dever fazer parte das nossas vidas. Ainda que, e correndo o risco de ser amargo, humanamente este ideal do "amor transcendente" só se equaciona numa perspectiva da doutrina da fé e só na realizavél (dizem alguns)  comunhão com o transcendente “ amor  é  concebido sem pecado. Mas, defendo eu, nunca numa uma outra qualquer dimensão existencial. Aí raramente os afectos não acompanham o prazer, e infelizmente a posse. E a entrega pressupõe, naturalmente, um compromisso aferível, mas que as partes não conseguem viver, “eternamente sem pecado”.É nesta amálgama, em que se transforma o ser humano quando tem que lidar com a “dor dos afectos” que eu faço incidir o meu olhar. E sem, de imediato, condenar tento perceber a angustia que humanamente se desenvolve quando, o que seja: a vida, a liberdade do outro, nos coloca na outra margem dos, ainda, nossos afectos. Viver o desencontro deste tempo, é penoso.
Não, compreender o impulso, é ser autista à própria condição humana. E essa condição é tudo menos linear e, nenhum tratado de ética, nem nenhuma mentalidade pós-moderna, poderá ter a pretensão da a conter fora das suas incongruências e absurdos.
Quando a inquietação da vida, suspende a imaginação e o sonho, quase sempre no seu lugar, põe a tristeza e um intenso sofrimento  … mesmo que dure apenas o momento em que nos lembrarmos da notícia revelada. Em que encaramos a “realidade”.
Já vai longo este meu comentário. Começo a sentir um dos efeitos da falta de alimento. Por sinal, desculpa o sarcasmo, também muito humano. A fome. Por isso vou alinhavar este final desafiando-te, a manteres este tema como, um mimo com natureza de provocação
Mesmo, com este (meu) forte pressentimento sobre a irredutibilidade da condição humana ao estádio de paz e de perene serenidade, a meu ver, a sua fatalidade genética que, me condiciona o olhar, acredito no sonho e nas utopias, que nascem do esforço e da nossa inquietação interior de querermos ser melhores … e, acrescento, uns para os outros. Na “esperança” de que os paradoxos gerados: guerras, fome, sem abrigo, violência etc., entre outros absurdos, num contexto de desenvolvimento cientifico e tecnológico e, sobretudo das mentalidades, serão de outra ordem.
A mim, dava me jeito que a nova ordem fosse a da festa permanente. A vida seria uma risada total... desculpa a criancice. Aí a serenidade seria a companheira dos espíritos e não existiriam mais les chagrins d’amour.
A festa estaria em tudo e, sobretudo. E, tu já não terias de te preocupar com a tua condição de mulher e, de eventualmente seres agredida por um “amor impulsivo” que não entende a tua condição de indivíduo feminino em liberdade.
Sinto que me crucifiquei com esta abordagem. Mas eu, muitas vezes, sou assim paradoxalmente romântico (...) também no sentido filosófico. 
Fica bem, querida amiga

Desabafo para a Maria Lua

Olá Maria. Li com atenção este teu desabafo.

Acredito que a "impulsividade" que está por detrás deste escrito esteja, estou certo, prenhe de boas intenções e sobretudo de um querer para a mudança. Creio que se inquirirmos toda a gente sobre a necessidade e a vontade de mudar, quase todos reconhecerão que é preciso urgentemente fazê-lo em diferentes estruturas da nossa vida social e política. Mesmos aqueles que aparentemente tem as necessidades resolvidas muito para além das necessidades essencias, te dirão que é preciso mudar.

Chegados, em abstracto a este "natural" consenso, é preciso ser consequente. Exigamos pois que as ideias para a mudança ou mudanças se revelem. É então que (no concreto) os conceitos, os mais variados, sobre justiça distributiva, liberdade dos géneros, ética e moral, mostram a sua diferença e reflectem mentalidades e os interesses de grupo social ou de classe se revelam imperativos e, que por isso, os antangonismos se exprimem até ao conflito.

Os presupostos que estiveram na origem primeiro dos estados sociais e depois das classes, já muito depurados pelas diferentes filosofias políticas, continuam a fazer sentir-se mais ou menos residualmente nas mentalidades e com influência, na prática, em todo o Mundo nas diferentes ordens sociais e políticas. Mesmo nas (nossas) tão louvadas Democracias. A questão da quota obrigatória na atribuição de lugares às mulheres no parlamento, ainda que eu não concorde, mas isso seria uma outra discussão, reflecte, a Ocidente, a resistência mental, mesmo depois do inquestionavél e formalmente instituído principio da igualdade de direitos e deveres para todos independentemente do género.

È verdade e temos a consciência da nossa tremenda evolução cientifica e tecnológica. Os bens materiais e o exponencial e exagerado consumo atestam a filosofia de progresso capitalista do mesmo modo como atestam todos os seus atropelos e resistências à implentação de uma maior justiça distribuitiva da riqueza e á consequente evolução para um mais participativo, politica e socialmente, estado de direito, na perseguição da utopia da faternidade plena entre os homens.

Mas aceitar estas permissas como desígnio maior da natureza humana que mobilizasse as vontades, as irmanasse, na concretização do supremo objectivo da justiça social e da igualdade de oportunidades, "infectando" o nosso comportamento com a fé nesses ideiais, poria em causa uma ordem, e os seus defensores, que reproduzem, na prática, todo o seu contrário. Sustentando-se hipocritamente num discurso político que nos quer fazer crer que também a, utopia da justiça da igualdade e da fraternidade, estão nos seus horizontes.

Apesar do "nivelamento" que a fé tentou introduzir com a ideia de um Deus justiceiro perante o qual todos os homens são iguais na Terra, vivemos sentimentos contradictórios resultantes das nossas necessidades efectivas que põem em causa esse desígnio da religião que é a entrada no paraíso para os "homens de boa vontade". Duvidamos, cada vez mais, não só porque a dimensão de conforto pela espiritualidade é de dificil alcance, mas também porque a materialização necessária à nossa sobrevivência e bem estar que por cultura, abrilhantamos com o status social de sinais exteriores de conforto e da riqueza, é o propósito da nossa individualidade.

A lógica pela qual sobrevive o sistema, este sistema, é a do consumo.

A sua inesgotavél imaginação e criatividade atestam a convicção das sociedades ocidentais desde do séc. XIII que o capitalismo é o que de mais próximo, do paraíso celestial, o homem é capaz de construir na Terra. A História pode testemunhar quantas lutas e quanto sangue os homens derramaram quando a indignação de estar vivo e humilhado transforma ideais, em aspirações possiveis, e a morte, pela justiça e por dignidade, transforma-se numa passagem para a eternidade que a memória dos vivos garante de geração em geração.

O socialismo cientifico de Marx não preveu um fim tão rápido das classes sociais como também não preveu a Democracia representativa. Com a instucionalização do direito ao sufrágio universal as lutas á margem do poder instituido são apelidadas de terrorismo. E assim a reforma como instrumento de mudança das politicas, ganhou maior legitimidade e substituiu como instrumento da democracia política a REVOLUÇÂO e continua a permitir adiar e obviamente manter os previlégios de um grupo social de capitalistas e um sistema de repartição da riqueza que legitima a acumulação por parte de pequenos sectores da sociedade. Os mais ricos.

Assim o voto é cinicamente um direito que expressa "livremente" uma vontade mas que pela fraca informação e que pela desmobilização militante da sociedade civil traduz por um lado o medo de que os mitos de uma esquerda socializante, criados com a desinformação, nos cerceie a liberdade individual e nos impeça de realizar as nossas naturais indiossicrasias. Isto é; ser rico, belo e invejado pelos nossos semelhantes.

A história fez chegar este "recado" à ideia ou às ideias que parecem constituir o motivo das tuas inquietações e o que te faz interrogar acerca da consciência do SER. E que essa consciência um a vez "revelada" e porque seria da mesma natureza em todos nós logicamente expressar-se-ia objectivamente da mesma maneira.

A inércia vencer-se-ia pois, já não a partir dos grandes ideais, da igualdade, liberdade e fraternidade, que a Revolução Francesa revelou como designios políticos,que não foram alcançados, em prol do bem comum, mas a partir de uma politica que tem por base a ecologia cujo objecto é da Terra, como habitat que sustenta a humanidade e cujas mudanças afectam transversalmente as sociedades e implicam um esforço e cooperação de todos.

É esta a nova consciência que tu prevês ser mobilizadora da sociedade civil, e que por isso se organizará à margem das tradicionais instituições políticas pela absoluta necessidade da mudança de paradigma para o desenvolvimento sustentado da vida em geral e das políticas que o realizem.

Pois bem é de facto, também eu penso, o grande leit-motiv que provavelmente mobilizará vontades e imporá políticas contras as quais os interesses económicos de grupo cederão um pouco mais, porque decididamente é o modo de produção que defende a acumulação e o consumo desenfreado que mais prejuízo têm causado ao planeta. E nestas circunstâncias, a produção tradicional de riqueza como argumento que justifica os meios começa a ser criticavél e defendê-lo começa a ser também mal visto.

É possível prever numa primeira fase em que a nova filosofia de organização das sociedades tenha por base maior consenso social. Concedo que esta poderá ser uma plausível prespectiva. Mas apenas acredito que este consenso perdurará objectivamente na fase de transição das tecnologias de produção das energias limpas e renovaveis. Mas o meu cepticismo, não me faz acreditar que o modo de produção se altere. Ou seja que o capitalismo passe a ter uma vertente mais social, quer na intervenção e organização das empresas quer na distribuição da riqueza pelos productores, até se descaracterizar e passar a ser apelidado transitóriamente de outra qualquer coisa, para a qual a filosofia política ainda tem que inventar o nome. Talvez o meu cepticismo se sustente nos exemplos do passado histórico. Mas aprendi que é pelo passado que se projecta o futuro.

E eu acredito.

Talvez ainda vivamos o suficiente para assistir, tu, ao clamar pela voz da universal consciência em unissono na defesa de uma sociedade que se organize no respeito às suas origens naturais e aos meios que a sustenta e que apesar de ambientalmente mais limpa privatize todos os recursos essenciais nas mãos de alguns "empreendedores", por demissão do Estado, e com esta opcção acabe por justificar a minha falta de fé relativamente aos sistemas reformadores e eu continue a acreditar piamente que as mudanças, as mais estruturais, não se instituem por decreto mas por vontade do povo em revolta.

Bom fim de semana.

Um beijo

Um bocejo (...) de vida

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Olá Vida, estou a acordar para o Mundo e tenho os sentidos um pouco entorpecidos. Nada que impedisse de corresponder á tua insinuação. Sobretudo hoje em que a minha rotineira "actividade" me exige mais trabalho do que o habitual.
O sol de calor temperado que desejo todos os dias  desafia-me para passear com sinais de luz que vejo espraiarem-se desde da minha janela. Daqui a pouco, esta luz vai incidir directa sobre a casa e disputar-me entre o meu dever e a minha vontade. Que tortura. Imagina. Em momentos como este as memórias tornam-se pérfidas aliadas do desejo egoísta e irreverente que cresce dentro de mim e, ingratas continuam cada vez mais presentes, obrigando-me a "vivê-las", esquecendo-se que sou eu que as albergo com carinho dentro de mim e que é através de mim que têm existência.
Mas têm uma ordem própria, a dos sentidos, a que obedecem para o bem e para o mal e não podem negá-la.
Que paradoxo. Sem me aperceber os sentidos foram-se desabrochando desde que comecei a escrever-te este "recado”. A indecisão está agora em mim mais consciente e obviamente mais contundente. Sinto que o seu efeito me provoca ansiedade que me dói na alma.
Porquês, brotam-me dos olhos, como anúncios de néon desafiando um desejo que se afirma em crescendo no sentido do êxito da sua proposta. Tenho um pensamento de censura para com a minha (individual) natureza, por não impedir numa qualquer ordem, os rasgos de inconveniência destes desejos e destas memórias.
A angústia de não ter um porquê, plausível, convincente, para transformar o momento em vontade paralisa-me a acção. Num incontido impulso ergo a cabeça e pela janela entra o Tejo, que se espraia suavemente num espreguiço de kilómetros, que sei, entre Oeiras e Vila Franca de Xira. Contido pela margens que o orientam e domam a sua ciclópica força renovada diariamente pelo abraço do Oceano Atlântico, vai embalando os barcos cacilheiros que acariciam as suas águas transversalmente numa corrida diária, entre as margens, a transportar as gentes, de lá para cá.
 Os turistas, misturados com as gentes que fazem o corredor entre a Praça do Comércio e o Cais do Sodré passeiam nas suas margens em cortesias reverenciando a beleza do seu azul e captam momentos, para a eternidade, com a cumplicidade do rio, num postal de que eu queria, agora, fazer parte.
Reconheço que, ter deixado escapar o olhar pela janela foi um gesto imprudente.
Fragilizei-me ainda mais perante o desejo que cresce, dentro de mim, confiadamente tranquilo na certeza de que vai ter êxito quando a decisão chegar.

Deixo-me absorver neste tempo de escrita que utilizo como um exercício de catarse.
 O Sol entretanto ganhou altura e espargiu mais calor pela minha casa e limpou o céu de nuvens. Tenho (agora) a certeza pelas memórias, que o horizonte é agora mais longínquo, a paisagem de contornos mais nítidos e o postal de Lisboa à beira Tejo ainda mais belo .
Ferve-me o sangue em revolta pelo castigo que me estou a infringir. Não vou olhar o Tejo. Repeti para dentro de mim e continuei curvado sobre o teclado onde martelava estas palavras. Olhei em redor e não tinha um mastro, nem ninguém, para me amarrar a ele. Senti-me mais desprotegido que Ulisses perante o canto das sereias.
Embrulhavam-se dentro de mim, a projecção de um arrependimento a curto prazo que se fazia censura e o ímpeto de uma vontade em me deixar “benzer” pela carícias deste matinal Sol morno de Outono em Lisboa e de me juntar aos felizardos lá em baixo, na praça e no cais, cujos movimentos de passeio pareciam pautados pelo encosto de uma brisa que os orientava no sentido da comunhão com o Tejo.
 Nesta hesitação sofrida, senti calor. Intui, de imediato que o tempo concedido pelo Sol para comungar das suas carícias com o Tejo e com Lisboa tinha terminado.
 E desassombradamente como se tivesse a cumprir um destino cósmico, ao qual nem mesmo ele, o Astro Rei, pode fugir, subiu mais alto nos céus e empinou os raios de calor sobre esta cidade no cumprimento de uma sentença que, julgo eu, para punir o comportamento dos homens e mulheres lisboetas, que não souberam manter e elevar a harmonia e a beleza desta urbe que, ele (o Sol) tinha elegido um dia, para espreguiçar os seus primeiros, mornos e ternos raios da manhã, quando despontava a Leste depois de noite dormida noutras paragens, muito antes de Ulisses, trazido por bons ventos, ter atracado neste lugar.

O desconforto do calor fez a coragem ganhar-me e fui capaz de elevar a cabeça.
Já sem medo de ser tentado fiz incidir o olhar sobre tão, supostamente, envolvente e tentadora visão. Esta não era a Lisboa dos meus olhos e das memórias tentadoras que me apavoravam por irresistivelmente desafiarem o meu dia e o meu ser mais formal.
O que a retina me levava ao cérebro, não fosse o movimento de pessoas e carros que a atulhavam, era uma imagem de um (quase) fóssil, de uma praça citadina em desalinho, donde as ideias de melhoramentos traduzidas em obras lhe feriram a frágil harmonia da estética que a história fez crescer neste lugar, e da importância que o rio teve no seu crescimento.
As obras tinham tornado mais feio o ancoradouro dos barcos que atravessavam o Tejo sem a calma e o prazer do destino à vista. Assemelhavam-se agora mais a recipientes flutuantes que em movimentos oscilantes entre as margens, deglutiam “passageiros” enchendo os ventres de metal até á insaciabilidade, para numa digestão rápida entre quinze e vinte minutos os vomitarem, na outra margem, num desalinho estético de roupas e figuras.
“Senti” com olhar a paisagem que aquelas viagens de “cacilheiro”, faz tempo, tinham acabado.
Não era a mesma límpida brisa que despenteava e acariciava as gentes, Verão adentro, para lhes refrescar os corpos cansados e melados em suor pelo trabalho. Não era o mesmo Tejo nem a sua a verde água que, imensas vezes, excitada pela carícia suave da navegação no seu dorso transparente, lambia os barcos em movimentos despudorados pelos afectos compartidos num imenso tempo, contra os quais a moral e censura nada podiam,
Envergonhei-me por não ter dado crédito aos jornais que, com mais ou menos verdade, vão disseminando “as realidades” feitas noticias e, deixei que o Sol morno desta manhã em Lisboa me tivesse, pelas memórias que fez me “reviver”, contagiado um desejo de preguiça hoje, em mim latente, tendo-me arrancado de um real bem mais necessário que me punirá de imediato na próxima semana se eu não cumprir o que devo cumprir. Punição que se arrastará por muito mais tempo e com mais intensidade se este projecto tiver que ser adiado.
Entretanto, de repente, uma máquina começou a esventrava a minha rua mesmo em frente á minha janela, ferindo o silêncio que normalmente está neste lugar e me é tão necessário ao trabalho.
O prazer de outra coisa qualquer que não fosse estudar voltou à assomar-se aos desejos, imensos, de fugir desta secretária, que reclama para si o tempo imprescindível á realização da minha tarefa, que o barulho das obras acabou de tornar inviável.
 Dei tréguas a uma consciência culpada que teimava em me acompanhar e em desvalorizar, neste contexto, a incapacidade que tive para resistir aos prazeres de reviver as memórias e suspender na “realidade” a vida.
O barulho ensurdecedor das máquinas que se intrometeu no silêncio, alterou um tempo que deslizava síncrono ponteado pelos sons característicos do quotidiano que se repetia na minha rua. O ar estalava a cada aceleração da máquina para aumentar a intensidade com que atacava o solo e o esventrava. Convoquei com todas as forças a concentração para iniciar o trabalho. Mas os sons fortes entravam-me pela janela e atingiam-me o Cérbero, alterando toda a disciplina e impedindo a minha ligação ao assunto. Aproveitei a circunstância a meu favor. E como todos os culpados que não assumem a culpa, utilizei todos os “imprecisos e dogmáticos conceitos como: o destino, o acaso, a falta de sorte, para aliviar a consciência e tal como o “inteligente” que sabe que a vontade que nos atira para o trabalho só se contrariar esperando que ela passe, fiz exactamente o mesmo; fiquei á espera que o impulso do dever me voltasse a visitar com a fé que desta vez me deixaria vencer por ele.


Evanescências

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10:52

Foi perfeito; - disse ela. A afirmação saiu-lhe espontâneamente como o corolário do prazer que se acabava de viver.Um breve sorriso aflorou o rosto dele como sinal de orgulho pela cumplicidade na construção desse prazer. Sentia que era parte desses momentos dessas horas, desses dias. Sentia-se em "estado de graça" depois da dádiva que representava para ele aquela afirmação por ela proferida, no mesmo instante em que a "ideia de perfeição" o atravessava com a velocidade e a intensidade de um cometa
Perfeito!!!... Pensou; enquanto que pela pequena janela olhava para o horizonte onde se abriam clareiras nas nuvens pela fuga dos mais atrevidos raios de Sol;
perfeito, seria poder cristalizar aquele tempo e aquele espaço, fundir os corpos e geminar as almas prolongando este prazer de estar , até que a vida .../... Acordou desta letargia quando ela proferiu o "passe mágico" para o real: -um tostão pelos teus pensamentos-. De imediato o "real" entrou pela pequena vigia do apartamento e preencheu-lhe os sentidos : o moinho  de vento rolava agora com mais força, as copas das àrvores agitavam-se docemente embaladas pelo ar aquecido transformado em brisa naquela tarde e,enchendo-lhe as narinas de uma mistura agre e doce de maresia com flores silvestres ...
Os corpos melados de suor já seco e, a vontade de saciar a fome que agora crescia dentro deles, lembrava-lhe ainda mais a sua condição humana, reforçando por isso a realidade. Todavia aquele envolvente ambiente teimava em desfazer-se. A sintonia era perfeita. Os olhares na mesma direcção do tecto adivinhavam futuros e multiplicavam desejos imaginados. Da proximidade dos corpos emanava um calor de reconforto. Voltaram-se um para o outro e os olhares de distintas cores esbaterem-se .As pupilas dilataram-se, os semblantes iluminavam-se de paz e, os pensamentos num movimento sincrone e descensurado transferiam desejos que tornava difícil estabelecer numa qualquer cronologia. Oferecidos aos despudorados olhares de cada um, os corpos, tentavam as naturezas saciadas, pelo esperado anúncio de mais um impulso que desse vida aquela vontade alojada na mente. Com a disfuncionalidade deste momento apareceu a madrugada. Senti um ar meio frio a lamber-me a cara enquanto a brasa do cigarro se tornava mais rubra com a minha aspiração. Latas do lixo tombavam ao assédio de cães vadios esfomeados. Um burburinho de vozes arrastadas fazia-se ouvir. Um grupo de jovens, soltando risos prolongados e tecendo alguns, para mim, imperceptíveis comentários olhou na minha direcção. No meio deles alguém me questionou: Oh mestre não tem frio aí na varanda? As palavras uma a trás da outra "feriram" o meu estado de evanescência. Deixei de ter o Tejo nos meus olhos. E o horizonte postou-se ali debaixo da minha varanda limitado a Norte e a Sul pelas luzes dormentes dos candeeiros de rua. Na primeira chegada à realidade, um dos vultos que olhava para mim na varanda parecia-me ela. Com a realidade mais presente percebi que não podia ser. Aqueles seres eram adolescentes bêbados, a curtir, que todos os fins-de-semana, em estado ébrio se dirigiam à praça de táxis mais perto para se deslocarem a outro sitio da cidade onde a noite fosse acabar. Não respondi aquela inoportuna pergunta. Voltei as costas e entrei no quarto. A cama estava desfeita e sem ninguém. Deitei-me e alonguei o horizonte para além daquela rua e daquelas vozes para me juntar a ela.


terça-feira, 7 de julho de 2009

Café de Flore; Um pouco de História


O Café de Flore, inicialmente um café de poetas e mais tarde de filósofos, foi inaugurado em 1885 e deve o seu nome, à deusa da Primavera, de nome "Flore" representada numa escultura do outra lado da Boulevard de Saint German du Près.
No ano de 1913 o poeta Guillaume Apollinaire que vivia na Boulevard de Saint Germain des Prés era um dos seus assíduos frequentadores tal como outro poeta, Salmon. Ambos tranformaram este local no seu espaço de escrita e reflexão. Assim nasceu a revista "Les Soireés de Paris".
Em 1917 este espaço iria ser "cúmplice" no aparecimento do grupo Dadaista, e palco privilegiado das tertúlias pautadas por grandes discussões entre Aragon e André Breton defensor e fundador do movimento surrealista.
Nos anos 1930, a elite literária de Paris "muda-se" para o Café de Flore: Léon ,Paul Fargue, Raymond Queneau, Michel Leiris, Georges Bataille, Robert Desnos. Ao mesmo tempo os "habituées" de Montparnasse: Derain, os irmãos Giacometti, Zaskine e até Picasso.

Esta particular atmosfera também não passaria despercebida à gentes do cinema. Michael Carné e o actor Serge Reggiani passam a frequentá-lo.
1939 seria o ano de ouro deste espaço germainpratin*. Paul Boubal, o seu proprietário sabia como atrair os grandes intelectuais ao seu espaço. O "couple" Satre-Bouvoir tem aqui espaço social reservado para reuniões. Sobre o Flore, Sartre escreveria o seguinte: "Estamos aqui sediados desde das nove da manhã ao meio dia. Aqui trabalhamos e comemos. Ás duas voltamos para continuar a tertúlia com os amigos até às oito.Depois de jantar recebemos pessoas para entrevistas e conversamos. Pode parecer-vos estranhos mas o Flore é a nossa casa."


Nos anos 50 e 60 passaram por este espaço que se tornou um icon em Paris actores como Jane Fonda, Jane Seberg, Roman Polanski, Marcel Carné. Brigitte Bardot, Alain Delon, Losey e Belmondo) e os cantores (Juliette Gréco, Boris Vian).Ainda hoje na esplanada do Flore se pode estar aprazívelmente sentado à espera que a manhã desponte e com um pouco de sorte "dar de caras" com Jonhy Deep, Jack Nickolson, ou com outra qualquer noctívaga alma das letras ou do show business.







*Germanopratin, é um adjectivo referente aos residentes no bairro de Saint Germain des Prés em Paris.
Alguns anos depois da Libertação de Paris, surge o termo germanopratin associado a circulos existencialistas, neste bairro parisience, passando a designar também um modo de vida. Nestes agitados anos do pós guerra este termo generaliza-se a todos aqueles que procuram este quartier pelo modo como a vida se expressa; em festa e pela noite fora.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

2008 zénith em Paris


A última vez que te escrevi foi no Zénith de 2008. Esperemos pois que tudo o que na generalidade queremos que de bom aconteça este ano, nas nossas vidas, se cumpra.

Teremos oportunidade de contar-mos um ao outro como vai acontecendo a vida ao longo deste ano. Estou em Paris. E esta é a mais encantadora urbe que conheço e aquela com a qual estimulo o "namoro". Gosto de me perder pelas grandes boulevards sem fim à vista, ainda que desta vez tivesse encurtado consideravelmente estes passeios por causa do frio.


As temperaturas muito baixas obrigaram a movimentar-me demasiadas vezes via "underground". As investidas a céu aberto saíram-me do corpo. Algumas vezes, suportei (-2) para satisfazer o impulso/vício que é misturar-me com as gentes nas artérias e "adquirir", nesse anonimato, o estatuto de cidadão aliviando o fardo de me sentir, como um turista, estranho à cidade e, que a cidade me olhe com um "voyeur", das suas praças, das suas ruas, das suas gentes


Numa dessas investidas resolvi percorrer a pé quase toda a Boulevard de St Germain vindo do Quai D'Orsay até St Michael. Desejei fotografar à noite os cafés, como Les Deux Magots, o Café Flore, o Café Mabillon, entre outros e acabei enregelado. Neles Boris Vian, André Breton; Sartre, Simone de Bouvoir e outros fizeram germinar, das tertúlias, embriões de movimentos sócio-culturais, como o surrealismo e filosóficos como o existencialismo que marcariam muitas das décadas do século XX e preencheriam muitas das (nossas) existênciais inquietações.


Surpreendi-me pela perda, aos meus olhos, da "inocência" de Paris. Prevejo, com este desabafo, esse teu sarcástico sorriso por esta minha "romântica" afirmação. Eu sei. Nós sabemos o que pretendo traduzir com este meu “sentir”. A diversificação da "fauna" social aumentou consideravelmente. Sobretudo de gentes como: chineses, brasileiros, e muitos negros do Golfo da Guiné e do Senegal. Impensáveis no "meu tempo" porque o Mundo era menos global. Adicionados à urbe estes seres enchem-lhe ainda mais as artérias em horas de expediente e em finais de tarde. A estas horas, Paris, é apenas uma cidade populosa e cosmopolita como tantas outras. Perde muito do seu "glamour" e da sua "coqueterie". Nem o XVIéme, o quartier mais chic e mais caro consegue fazer-me sentir, no ar, o seu perfume e mostrar a sua diferença.


Para estas pessoas, os mais recentes imigrantes, a crise e a sobrevivência ainda mais difícil que a acompanha, espalharam mais e mais desconfiança sobre eles,e revalorizaram de novo os estereótipos combatidos pelo ataque cerrado ao preconceito que nos anos 60 e 70 tiveram lugar nas lutas sociais e políticas que moldaram novas e mais solidárias mentalidades. O medo ganhou mais espaços nesta cidade agora mais policiada. Os olhares sempre atentos cruzam-se e expressam a desconfiança, que não disfarçam, e que como um estigma marca" por todo o lado: nos passeios, nos corredores do Metro, no Metro, nos comboios, pela suposição arrancada, pelo gesto imaginado, hostilizando as diferenças evidentes que a natureza e as culturas “colocaram” nos outros (…)


Quiçá seja este o estado permanente de paranóia que se instalou nesta cidade depois das sublevações em 2003 de uma minoria magrebina acompanhada por outras "minorias" de deserdados do "budget" social que com eles partilham os HLM* e que tal como eles são “literalmente” arrumados em guetos nos arredores.


Os actos de vandalismo instalaram algum pânico entre os defensores desta ordem social e ao menor sintoma de que a crise se vai instalar e o desemprego aumentar, a memória faz por lembrar aqueles recentes tempos, e a distanciação e o medo são os espectros mais perceptíveis da existencial urbanidade das belas e grandes capitais como Paris.


Outros factores explicarão porventura esta atmosfera que eu senti e que "beliscou" o encanto que eu tenho por esta cidade. Em particular porque com este "paranóico estado de alma" instalado nas pessoas, as possibilidades foram diminutas, para me aproximar delas pela "espontaneidade" de um sorriso, pela gentileza de um gesto educado, um excusez-moi, que nos retivesse o olhar e disfarçasse um convite para ficar-mos por ali, deixando que a conversa dissipasse a "estranheza" e nos fizesse mudar de rumo, para nos aproximar, pouco tempo depois com alguma intimidade ganha no momento.


Tudo o resto, em particular, a agenda cultural, ambiciosa, foi quase integralmente cumprinda entre museus e castelos.


Felizmente continuo com muita vontade de voltar, mas obrigatoriamente, no fim da Primavera ou no Verão. O Inverno para um calcorreante como eu, já era.


Beijos e abraços






*Habitações sociais do Estado