sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Um dia na vida de uma mulher



Despertou de um sono longo. A realidade chegava-lhe ordenada pelos sentidos. Ainda de olhos fechados o olfacto não transportou até si nenhum perfume que atestasse outra humana presença. A epiderme reclama-lhe o toque com intensidade de carícia, o beijo matinal no ombro direito, a junção do corpo dele com o seu, seguido de um abraço que inexoravelmente a introduziam no Mundo. Eram assim inevitavelmente os despertares aos sábados de manhã depois de ter conhecido o Bernardo, seu namorado, havia pelo menos um ano. Dois "specimens" lindos, com glamour, que desafiavam pelos bares e gafieiras do costume, os incontinentes caçadores de sexo das soirés lisboetas. Aos olhares explícitos daquela tribo de oníricos nunca tinham sido capazes de conter as sensuais coreografias que exprimiam na batida repetitiva dos sons da House Music, ou no “caliente” abraço que o bolero exigia, enquanto arrastavam os corpos colados pela pista ao encontro da nota musical que coroasse o extâse que adivinhavam invadi-los, e que se cumpriria com a cumplicidade mágica de uma atmosfera sombria que lhes outorgava a natureza de silhuetas. 

Recusava acordar. Sabia que esta negação para a vida se manifestava sempre assim depois de um “desencontro de afectos”. Mas desta vez sentia-se “incompleta” e por isso não queria desvelar-se para um dia que lhe faria sentir o peso da solidão. Estava “amputada” do afecto com mais empatia que tinha vivido estes últimos tempos. E, obviamente, sentia que não eram só as noites de enlevo e orgasmos que, em tão pouco tempo, já eram saudades, mas era tudo o que demais compunha a vivência com este companheiro. Muitas vezes os “olhares” para a realidade sobrepunham-se de tal maneira, e sabia não serem estes momentos de perfeita sintonia, uma refinada gentileza dele, que concedia ao espírito, apesar da sua sólida formação materialista, a veleidade de supor uma qualquer teoria acerca das almas gémeas.
Nesse revelado momento fazia sempre por esquecer a sua lógica de pensamento para não beliscar a harmonia e a felicidade experimentada. Mais tarde, para “explicar” aqueles momentos de existencial perfeição, sem trair a sua formação, enquadrava-os nos fenómenos empáticos que os afectos potenciam. Também a estética não os dividia apesar da diferente e natural, dizem, sensibilidade dos géneros. Discutiam livros e cinema sem exaltar-se e em total liberdade de opinião.

Estava triste porque este tempo de feliz mundividência estava prestes a desmoronar-se por um ataque de imatura “ciúme” que uma tendência possessiva inflamou ainda mais. Sentiu a liberdade, a sua, “encolher” quando ele “soltou” um discurso sobre o compromisso que pretendia, percebeu ali mesmo, organizar as suas emoções. Para ela as relações eram, sempre tinham sido, “edifícios” estratificados por experiências afectivas e emocionais, no qual o ajustamento das mesmas determinava o cimento da sua estrutura e a sua permanência. Percebia o incómodo, o dele, porque o piropo de um bem-apessoado transeunte da gafieira tinha estimulado nela uma resposta no mesmo tom, seguida de um curto “briefing” de insinuações, entrecortadas com ritualizadas coreografias de côrte. O irreverente “beicinho” do Bernardo foi por si apercebido sem nenhum sentimento mesquinho de superioridade. Sentiu um enorme carinho pelo seu indiscreto momento de insegurança. Gostava da pessoa de Bernardo. E gostava do homem que ele incorporava. Mas deu consigo numa das mesas da gafieira a “engolir”, por respeito, aquele inoportuno e redutor discurso acerca das formalidades que ele entende deverem fazer parte das suas relações afectivas, e que acabavam de ser desvalorizadas pelo comportamento dela.

Ficou triste pelo que entendia ser um precedente ao qual não poderia ceder. Antevia que se concedesse, a Bernardo, aquela perspectiva estaria a submeter-se a um código moralizador do seu comportamento afectivo que não subscrevia e a mutilar a sua “livre” natureza para viver emoções que, a seu ver, não punham em causa os alicerces da sua relação com ele. Sabia, sobretudo, que o valor e a permanência da sua relação com Bernardo resultavam do somatório e da intensidade das experiências que viveram e que aquele, no seu entender, insignificante episódio não poderia corromper esta concepção; para si um credo, "de que as relações afectivas permanecem porque o seu edifício é estruturado pela sedimentação de diferentes experiências com capacidade para se ajustarem entre si”.
 Daí entender que aquele julgamento a que Bernardo a tinha submetido se revelava como uma experiência desajustada de todas as anteriores. Pressentida a amargura que esta rotura causaria aos dois, o afecto que lhe tinha, enorme, desaconselhava-a a que num impulso radical ditasse o fim daquela relação, ali e naquele momento, porque a amargura não lhes daria sossego e a tristeza encontraria motivos para se instalar por algum tempo. Duvidou sobre qual a opção mas correcta a tomar.
Queria compreender se aquele discurso aparecia como recurso à justificação de um despeitado momento ou se revelava parte de uma mentalidade por si desconhecida. Entendeu voltar sozinha para casa e por antecipação começou a viver, ali mesmo, a experiência de solidão que, no seu apartamento e na sua cama, se tornariam mais intensos naquela noite de sexta-feira.

No dia seguinte, na manhã de sábado, encontrava-se na cama pressionada pela decisão de ter de ressuscitar ou aniquilar uma relação que ontem tinha suspendido. Agitada enquanto “vivia” por remake o sucedido, sentiu-se desconfortável na cama. Uma atrevida ponta de ar invadiu-lhe a atmosfera quente dos lençóis e causou-lhe um “frissom” no corpo, agravando ainda mais o desconforto do seu melancólico e triste despertar. Abriu por fim os olhos e a claridade que a manhã, já alta, tinha lançado para dentro do seu quarto feriu-lhe o estado de sonolência. Algum calor, impróprio do Inverno, fazia-lhe adivinhar a vida lá fora, manifestando-se em desportistas de fim-de-semana mobilizados no combate à adiposidade construída em empregos sedentários que lhe penalizam o corpo e a estética, numa sociedade que paradoxalmente tem nas diferenças humanas um valor democrático, mas que obtusamente insiste por influência de uma fanática filosofia da “normatização” veiculada por alguns midia, em construir modelos para a standarização de tudo e de todos nós.
Reconheceu neste pensamento uma visão de crítica militante de todo o pensamento ou filosofia que se aflorasse redutora das escolhas individuais de vida que não atentassem contra a estabilidade da ordem democrática.
Mas era do mais elementar bom senso reconhecer também o esforço meritório daqueles desportistas de fim-de-semana, por influência, ou não, do discurso mediático. Sobretudo porque era evidente que a actividade física é boa para a saúde.

Percebeu entretanto que já nem mesmo o conforto da cama a compensava. Ficar ali significava não contrariar a pulsão masoquista destes momentos e enredar-se no sucedido. Energicamente levantou-se como se a vida a puxasse para dentro de si e dirigiu-se ao chuveiro. Sentiu que a temperatura quente da água se revelava como a primeira compensação daquele dia. Apostou em si e produziu-se sem saber que um convite percorria à velocidade da luz os fios do telefone para se anunciar num DRING. Atendeu. Do outro lado um colega e amigo revelava enfaticamente a mensagem relembrando-lhe que hoje se celebrava o jantar da sua agência de publicidade. Sociabilizar-se era tudo o que menos queria naquele momento. Olhou-se ao espelho e gostou de si. E associou ao seu embelezamento uma premonição qualquer que sentia positiva. Respondeu entusiasmada que sim. Que estaria presente. Passou novamente pelo espelho para que a imagem, de si, ali reflectida abrisse brechas na sua tristeza e lhe colasse no espírito confiança e alegria. Muita alegria.

Evitou o elevador para sair do prédio. Quando chegou à rua já a Lua com o seu exército de estrelas tinham encetado uma perseguição ao Sol para instalarem a noite no céu. Por impulso olhou para o firmamento na procura de uma estrela que sentisse sua e que brilhasse, em si, toda esta noite. A empatia não se estabeleceu. Na dúvida segurou bem dentro do peito a positividade do momento. Quando saiu do carro, já no destino, constatou que o néon tinha ocupado toda a cidade.

Mostrou-se à chegada e durante o convívio receptiva aos "piropos". Mas soube também perceber os excessos. Tinha a certeza que nem tudo, naquelas exuberantes demonstrações de afecto, era inteiramente verdade. Mas não deixou de estar à altura das insinuações. Era natural nela a adesão aos jogos de palavras eivadas de subliminares propósitos. Mas entendia-os como um modo que os seres inteligentes encontraram para tornear, sem inconveniência, alguns formalismos culturalmente ainda “vivos” e actuantes em muitas mentalidades. Como a do Bernardo agora revelada. Por isso ele não entendia como é que estes jogos podiam ser apenas prazeres intelectuais, carícias egocêntricas e por aí ficavam sem, imediatas, consequências. Bernardo defendia que as insinuações disfarçam, em menor ou maior grau, objectivas intenções. Mas concretizáveis, defendia eu, apenas e só pela vontade consonante dos intervenientes. E, para ela, os afectos onde estes prazeres insinuados se realizam eram, muito concretos e sempre experienciados.

Na despedida alguns beijos não encontraram o local desejado e alongaram, para uma sublimação, a sua permanência no "destino" possível que lhes reservou no rosto.
Alguns olhares insinuavam um desejo aceso nas entranhas que teriam que adiar. Porque nessa noite, a excitada predisposição libidinosa não iria cumprir-se em sexo. Pelo menos consigo como partenaire. Ninguém ali tinha acordado os seus duendes para brincar aos "amantes”. O momento tinha tornado tudo demasiado óbvio para todos. A indecisão parecia ter tomado conta das vontades e suspendido o tempo. As insistências para que ficasse foram infrutíferas. Com um cordial e aberto sorriso finalizou a despedida deixando alguns apontamentos em aberto para mais tarde confirmar. Em seguida desprendeu-se suavemente da sua voz um cumprimento de boa noite que se elevou-se no ar para apaziguar o cosmos e, todos e cada um por si, pensaram num destino para aquela noite. O ronco dos automóveis "estilhaçou" o silêncio e a claridade à solta dos faróis perfurou a noite para desvendar o segredo dos caminhos. Ela empreendeu o rumo de casa como o desejado destino.

No regresso o tempo da viagem pareceu-lhe suspenso e sem atritos de qualquer ordem. A silhueta do seu "refúgio", como que por magia, saída das trevas, projectou-se num horizonte próximo. Bocejou dentro do carro. Minutos depois dava o primeiro passo dentro do seu apartamento. Voltou-se, fechou a porta, e “apalpou” o espaço com um olhar de reconhecimento. Sentiu um carinho imenso e rememorou, num ápice, a história de todos os adereços que eram parte de si. Da sua vida ainda curta de mulher adulta e emancipada. Detectou neles muita da sua identidade. Afinal não estava sozinha. Projectou os braços apertando-os contra o tronco num “abraço” possível a si mesma e sentiu que tinha construído um instante de felicidade. Estendeu-se no canapé da sala fechou os olhos e deixou-se ir com o turbilhão de pensamentos que reclamavam uma ordem, a sua, e pressentiu que não mudaria. Embalou-se nesse jogo com as ideias enquanto o sono cada vez mais presente lhe "roubava" a consciência. Não quis resistir. Preferiu esperar que o Sol a chamasse no outro dia. Boa noite. Murmurou para si. E não registou mais nada na memória.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

A propósito da missa Miserere Dei de Gregorio Allegri


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(...) eis uma representação que reconheço de exaltação de  uma enorme virtude que é a humildade. Tal a devoção que lhe está associada nesta missa. 
Reconheço ainda a sua enorme beleza cuja inspiração só a ideia de comunhão com o transcendente seria capaz de a inspirar. Contudo não posso deixar de viver e de me interrogar sobre o que considero um paradoxo e que me inquieta, porque sendo eu um irredutível militante dos homens e das mulheres a quem imputo toda a beleza e toda a miséria e a sua consequente transformação na História, não entendo o porquê de não sermos nós (os humanos) os inspiradores e os objectos de tanta e tão harmoniosa beleza ...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Virtual partilha



Do meu comentário para o seu comentário. Dito assim é como se as palavras ditas/escritas tivessem irmanado sensibilidades que vivem e se exprimem nesta partilha de recados e, que nos surpreendem com mimos, como um pressuposto desta virtual amizade. Ao mesmo tempo que atribuindo "anima/alma" aos comentários transformando-os em entidades independentes, iludimos (eu e você) a vigilância do ciumento Big Brother, desta "esquizoide" aplicação. Creio que, desta maneira, os ciúmes, essa aberração sentimental, não vão impedir-nos de realizamos o objectivo de nos podermos brindar com uma escrita "anexada" de mimos" A ver vamos. Enquanto meto estas palavras em carreirinha para que "ordenadamente" as ideias cheguem até si, repasso o trecho musical do Miles Davis que da primeira vez o "ciumento", nós já sabemos quem é, impediu de chegar aos seus ouvidos construindo uma atmosfera de emoções suaves e carinhosas que a envolveriam, num outro tempo, para onde só a música é capaz de nos levar. No momento em que lhe escrevo este "recado" no ar misturam-se os sons que, "soprados" pelo trompete, desafiam a gravidade e mantêm-se suspensos por algum tempo; a flutuar. A sua intrínseca matemática, gere-lhes a vida; breve mas intensa. Em cadeia e em interacção, atravessam o espaço, deslumbram-nos por segundos e, depois morrem como estrelas cadentes que se perpetuam na (nossa) memória por via das emoções exaltadas. Os sons/a música inscrevem-se nos destinos de naturezas trágicas como a beleza. E só têm sentido nesse tempo efémero. Tal é a necessidade do seu transcendente equilíbrio, da sua fundamental harmonia. Fora dum tempo breve toda a beleza desafia as limitações humanas para a entender. Fora desse tempo breve os sons transformam-se em ruidosas sonoridades que ferem o ar. Aqui, em minha casa, a ordem dos sons continua a fazer música. Continuo a desfrutar da sua beleza. É uma atmosfera de prazer envolvente. Suspendo a escrita para corresponder com uma trinca num, aparentemente, delicioso pêssego que tenho ao meu lado. Encho a boca de uma textura vegetal e aromática que me mobiliza o sentido do gosto e a mistura com os outros sentidos numa atmosfera já excitada pelos sons. É um carrossel de pequenos prazeres a que não sei pôr ordem. Paro. Tento encontrar o princípio e o fim de cada um destes prazeres. Não consigo. Volto a tentar. Resolvo parar a escrita e dedicar-me a estes momentos de prazer intenso que se completam e me completam.

As últimas notas do piano sobem lentamente deixando adivinhar o fim da música e a amputação deste meu (delicioso) momento. Acabou. Como prometido vou passar-lhe este testemunho. Este mimo. Como convencionamos chamar-lhe. Oxalá também em si ele encontre a receptividade emocional que o faça viver mais algum tempo.

Amizade e virtuais contactos


(escrito em 29 de Abril de 2009, como resposta á questão de como seria o Mundo sem amizade)
  … Sem amizade (sincera) a vida seria um buraco negro cega de afectos e com um Eros mutilado pelo impulso sexual(...) mas uma vida que (pode adivinhar-se) possível a prazo

(escrito em 1 de Maiol de 2009, como resposta á questão  " como me imaginas")
... Imaginar-te a partir das trocas de recados que tivemos, só poderia resultar num perfil saído de uma primeira consulta de psicologia, de um esboço diagnosticado por um consultor após uma entrevista para um emprego, de um sentimento simpático por um sorriso matinal que se esboçou, no entretanto, dos (nossos) sentidos que se cruzaram pela tua entrada e a minha saída de um café, onde rotineiramente as bicas nos esperam, como alento para mais um dia de trabalho, etc , etc, etc, ... sei tão pouco de ti, mulher, que só por um exercício de masoquismo e por algum virtual despeito, que não existe relativamente a ti, poderia arriscar a imaginar-te, tu que dás (vida real) ao nosso virtual contacto.
Imaginar, adjectivar, como tu fizeste sobre mim, diga-se, no exercício e no conforto que a liberdade virtual te confere, não o farei,... estou constantemente a ser interrompido que ainda me repito na prosa que te escrevo. Se acontecer, não leves a mal, - dizia eu que não farei esse mesmo exercício para corresponder à tua curiosidade e para deleite do teu ego, sem ofensa.
Todos temos este fetiche de querer saber o que os outros pensam de nós, como nos imaginam, para reforçar a nossa auto-estima, e para aferir, de algum modo, o significado das nossas opções, mas também porque a alma gémea, essa recorrente aspiração que nos vem do desejo de ser feliz pela justa medida em que a harmonia deve de ser a sustentação dos afectos, do amor que nos apoquenta a existência, e que aqui, no virtual contacto, pode estar do outro lado á distância de alguns fotões que se traduzem primeiro em informação depois em afecto.
... mas como diz Joaquim Sabina que eu respeito e por quem tu te enamoras-te, "que no te vendan amores sin espinas"... este foi um aparte, creio que estou a sair do objectivo da tua pergunta.
Voltando à questão que é a de corresponder à tua curiosidade para saberes como te penso/imagino, dir-te-ei que alguma coisa te desajusta do quotidiano, das sociedades, do microcosmo dos teus amigos e que na poesia, na escrita por ti, e na que lês de outros poetas procuras algo me mais "substancial, de mais essencial" que dê razão a um sentir que se choca com a materialidade de um quotidiano que parece inquietar-te a vida; talvez porque essas inquietação representem a necessidade e a "convicção" de que a vida, a que tu entendes mais plena, esteja para além destes fluxos quotidianos, da organização das sociedades ocidentais onde tudo se elabora, numa lógica de mercado, pronto a consumir, como contrapartida pela colaboração profissional numa empresa e pelo acto de votar para animar o sistema. A distância no sentido mais poético e mais afectivo instalou-se porque aparentemente sobrevive-se (sem estar presente, o amigo, o amor, a participação) – todo este espaço é muito preenchido por outras muitas coisas que se podem fazer sozinho.
Almas, como a que humildemente penso ser a tua, com alguma saudade (da sua vida) pela proximidade à poesia que revelas, são imensas, e só por esta, chamemos-lhe circunstância me permito esta "generalização" ... O mais sobre ti nem a idade me atrevo a calcular ainda que a adição de (20+25) não me pareça difícil. Tudo o que, pouco consubstanciado nos nossos recados, eu me atrevê-se a criar/imaginar acerca de ti só poderia ter acontecido num exercício de escrita, e na tentativa de "ajustar-te" a um qualquer estereótipo, com dois ou três detalhes que eu gostaria que lá estivessem. Mas por enquanto nenhuma ninfa me visitou a propósito ...

Mulher de (+ ou -) 45 anos, à procura de qualquer sentimento que não seja intenso... etc, etc, etc

Os beijos que entenderes tomar, em dose, para te satisfazerem hoje

Paris


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Olá minha querida amiga, Paris é um pequeno cosmos, que a Liberdade e os movimentos que a germinaram escolheram para se cultivar. Depois é chique, charmosa  e coquette, mas também é libertária, solidária, política e revolucionária, no sentido mais amplo do termo, e desde de sempre foi (muito) cosmopolita.
Nesta planície à beira de la Seine, sempre foram acolhidos os expatriados, os congeminadores de revoluções, os idealistas, e os imorais, ou (amorais), os amantes, e as meretrizes, que viviam escondidos ou foram excomungados de todas as urbes, da Europa, onde o bafiento odor da moral cristã não lhes deixava recanto para sobreviver ou as ideias políticas afrontavam a ordem estabelecida.


A libertinagem e a contestação política estão na génese da projecção desta cidade no Mundo Europeu, e não só. Mas esta é a parte mais mundana da identidade de Paris. Montmartre, o quartier do deboche, com o Pigalle a seus pés, tornou-se, não o podiam supor, os zeladores dos costumes da época, um dos ex-libris da Paris libertina que toda a gente quer percorrer, na esperança de reconhecer um vestígio, no mínimo uma imitação, muito descaracterizada do bairro de perdição, onde Henry Lautrec e mais tarde Picasso, entre outros artistas de renome, se "compensaram" das batalhas a que a arte e o acto da criação os obrigava. Foram tempos da Paris/Burguesa.

Lá em Paris, a liberdade e o enamoramento, l'amour, sempre foram cultivados desde de muito cedo como expressões inadiáveis da natureza humana, e necessária à felicidade, harmonia, e plenitude dos seres.

Esta é uma visão, (um pouco) por dentro da História que projectou esta cidade no Mundo. Reconheço, agora que te escrevo, que esta mirada não está isenta de emoções vividas, manipuladas pelas memórias de quem nela peregrinou alguns anos. Sim. Eu vivi alguns anos em Paris. Tenho-a nas veias. Sem remorsos de não me encontrar por ali mas, por vezes, atraiçoado pelas saudades, essa expressão, que traduz a “ausência” no sentir tão lusitano. Outros tempos. Outra cidade, social e politicamente falando.

A última vez que "namorei" com ela, Paris, foi no zénite de 2008. A azáfama do Natal fazia sentir-se por todo o lado. A crise anunciava-se já  no crescendo do desemprego que comprometia equilíbrios precários e vidas difíceis entre a comunidade cada vez maior de imigrantes africanos. O Inverno e o frio que o acompanha, punha a nu todas as dificuldades que muitas destas pessoas plantavam na esquina de uma qualquer boulevard ou de um qualquer bistrôt, onde as mágoas e os azares sempre foram argumentos para tocar o coração daqueles a quem, por enquanto, a crise lhes tinha passado ao lado. Mesmo confortados por esta solidariedade de café, o desespero, a injustiça colada à pele, a desorientação por não encontrar o culpado, iam fazendo vitimas entre os mais desprevenidos, no Metro, nas gares de comboio, nas esquinas mais solitárias, nos trajectos, daqueles estavam em actividade, entre a casa e o trabalho, nas rotas de algum turista mais explorador do espaço que apareceu, sem ser convidado, nos lugares que a pobreza e a marginalidade territorializaram. 
Ás vezes reflectia-se uma espécie de medo, nos rostos das gentes, ao fim da tarde quando o fluxo nas artérias tinha menos vida e a cidade se aninhava para receber a noite fria.

Eu tinha uma agenda plena e grandes expectativas neste reencontro. Culturalmente deleitei-me com tudo o que a minha pequena estadia me permitiu - Quai D'Orsai, Louvre, Maison de Picasso, Museu Dali, L'Horlogerie, Cemitério do Père L'achaise, onde está sepultado Jim Morrison dos Doors entre outros vultos da cultura e da política; Casa Museu de Rodin, Conciergerie, Les Invalides, Casa Emmanuel Dèschamps; Centre Pompidou, e muitas permanências no Quartier Latin, de gratas memórias, em Montmartre, no Sacré Coeur,  e ainda alguns passeios pelo Quai Voltaire entre Chatelet e Notre Dame.

Inicialmente estranhá-mo-nos, eu e a cidade, depois de tanto tempo sem nos vermos. Tive a estranha sensação de que ela me queria "atrapalhar", confundir, fazendo-me sentir um estranho que tem, obrigatoriamente ,que cumprir um ritual iniciático de aceitação.Tactear-lhe o corpo, aventurando-se nas suas artérias, para ser aceite como um dos seus. Duas horas bastaram para, depois de entrar nela, nos reconciliar-mos. E apesar das mudanças na minha ausência que me frustraram os "imprevisíveis" rendez-vous com que Paris me brindou sempre que a visitei, constatei que a "patine" de encanto que envolve esta cidade tem a natureza perene das belezas que nem o tempo se atreve a beliscar.

Contei-te o meu "olhar e o meu sentir" deste encontro com Paris. Alonguei-me, quiçá de mais. Mas todos os meus amigos sabem que não faço segredo do meu amor incondicional por esta urbe e pelos seus encantos.

Beijo.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Pro(vocações) de amiga



Olá Querida amiga; … estás sempre a provocar-me. Eu não o mereço. Pedes-me comentários a situações, para ti inaceitáveis, numa tentativa sibilina de me apanhar em contradição quando sabes que, independentemente de eu procurar ter um olhar mais abrangente e tolerante, sobre muitas questões polémicas, não hesito em condenar estas práticas de violência de alguns homens sobre as mulheres.
Podias ter elaborado um questionário. Responder-te-ia com a mesma coerência com que faço o comentário as estas imagens e vídeos, que me envias-te e aos quais recorres para gritares a tua indignação.
Pelo o que entendo da linguagem "subjacente" ás imagens e vídeos que partilhas é muito recorrente a temática da liberdade da mulher. Alguns deles de uma forma poética, como devem ser sempre a linguagens que pretendem ser representativas de tão inalcançável designo, como o é a liberdade … e eu acrescento para ambos os sexos.
A liberdade como a felicidade, de tão relativas, traduzem (momentos) fugazes de harmonia cósmica em nós, que nos brindam em momentos muito particulares da nossa existência, para logo nos desinquietarem na procura de outros idênticos momentos.
 O paradoxo é quando (viver) a liberdade constitui um suplício.
Por isso afirmo que, é sempre preferível viver uma (liberdade relativa) que nos permita sentir e estar no caminho para uma qualquer liberdade.
A outra, a liberdade absoluta é um mistério que flutuará sempre no limbo da mais românticas das aspirações humanas. E ainda bem. Porque se por qualquer sortilégio, um dia, este utópico desígnio se concretizasse, na alma de quem o conseguisse instituir-se-ia o absoluto vazio... porque supostamente, quem alcançasse essa condição, mutilar-se-ia do “sentido” da liberdade como horizonte tão necessário e, sempre determinante, para instituir e manter os compromissos, de que se faz a vida.
Nessa condição, de absoluta liberdade, o homem ou a mulher, impossibilitados de estabelecer compromissos na vida, perderiam o supremo sentido da sua própria existência. Não ligues, querida. Foi uma reflexão, talvez, desviada do contexto
Regressemos pois, ao nosso objecto de reflexão: as imagens violentas que, me enviaste e que, representam um atentado contra a liberdade e a dignidade das mulheres em concreto. É óbvio que têm de ser objecto de crítica. Em particular quando este recurso à violência por parte dos homens toma foros de "normalidade" nas mentalidades contemporâneas.
Sem deixar de ser sempre condenável, qualquer recurso à violência num contexto das relações, suponho que, já em deficit de afectos, é interessante, para abrir esta discussão, não nivelar estas manifestações pelo mesmo diapasão.
Nem toda a agressão, no meu entender, constitui o princípio da sua normal instituição. Não te exaltes. Não estou a dizer nada de indefensável. Um impulso agressivo, não é uma prática sistemática de porrada – não gosto do termo mas é aquele que melhor traduz essa indignação, que é a violência sobre a mulher, mostrada nestes teus vídeos –  e, nem sempre se manifesta da mesma maneira e em condições de ânimos exaltados pelo “desamor” de um pelo outro.Mas sempre condenável. Sem dúvida.
Qualquer acto de violência física (refiro-me em particular a este tipo de violência porque é sem duvida o mais representativo no contexto das relações heterossexuais) é sempre atentatório dos direitos e liberdades das mulheres e, também da sua dignidade. Mas, o que mais nos deve preocupar, é quando um qualquer homem conseguiu "institucionalizar" este comportamento na relação e, a (ainda) sua companheira, tem dificuldades em escapar-lhe.
O bofetão "extemporâneo", sempre condenável, é por vezes num contexto de imaturidade afectiva provocada pela insegurança o modo mais brutal e primário de dizer; não me abandones. Nós os homens, quase todos, temos o Édipo mal resolvido. À imagem da nossa ligação com a mãe, aceitamos que as mulheres nos critiquem, mas é-nos insuportável que elas nos abandonem e nos deixem de proteger. E muitas vezes por cultura machista ou não, o modo como agimos para subverter a nossa fragilidade, não assumida, é a agressividade. E gritamos, ameaçamos, agredimos … Ao que tu me obrigas querida amiga para defender esta perspectiva com alguma coerência. Mas tu conheces-me. Sabes que sou polémico e que este facto nunca me retraiu de defender os meus pontos de vista. Eu sei. Nem sempre é fácil esclarecer algumas das posições complexas que teimo em defender. Mas os seres humanos, pelo menos, como eu os entendo e sinto têm na sua alma muito pouco de maniqueísta. São muito mais paradoxais. Usando uma metáfora para ilustrar a natureza humana, o quero dizer é que, as pessoas são sempre muito mais ao vivo e a cores do que a preto e branco. Não te parece?...continuando a reflexão e para concluir …Penso que todos desejamos viver as relações amorosas muito para além da dimensão humana
E esta é um a”ilusão” que tu sabes que defendo dever fazer parte das nossas vidas. Ainda que, e correndo o risco de ser amargo, humanamente este ideal do "amor transcendente" só se equaciona numa perspectiva da doutrina da fé e só na realizavél (dizem alguns)  comunhão com o transcendente “ amor  é  concebido sem pecado. Mas, defendo eu, nunca numa uma outra qualquer dimensão existencial. Aí raramente os afectos não acompanham o prazer, e infelizmente a posse. E a entrega pressupõe, naturalmente, um compromisso aferível, mas que as partes não conseguem viver, “eternamente sem pecado”.É nesta amálgama, em que se transforma o ser humano quando tem que lidar com a “dor dos afectos” que eu faço incidir o meu olhar. E sem, de imediato, condenar tento perceber a angustia que humanamente se desenvolve quando, o que seja: a vida, a liberdade do outro, nos coloca na outra margem dos, ainda, nossos afectos. Viver o desencontro deste tempo, é penoso.
Não, compreender o impulso, é ser autista à própria condição humana. E essa condição é tudo menos linear e, nenhum tratado de ética, nem nenhuma mentalidade pós-moderna, poderá ter a pretensão da a conter fora das suas incongruências e absurdos.
Quando a inquietação da vida, suspende a imaginação e o sonho, quase sempre no seu lugar, põe a tristeza e um intenso sofrimento  … mesmo que dure apenas o momento em que nos lembrarmos da notícia revelada. Em que encaramos a “realidade”.
Já vai longo este meu comentário. Começo a sentir um dos efeitos da falta de alimento. Por sinal, desculpa o sarcasmo, também muito humano. A fome. Por isso vou alinhavar este final desafiando-te, a manteres este tema como, um mimo com natureza de provocação
Mesmo, com este (meu) forte pressentimento sobre a irredutibilidade da condição humana ao estádio de paz e de perene serenidade, a meu ver, a sua fatalidade genética que, me condiciona o olhar, acredito no sonho e nas utopias, que nascem do esforço e da nossa inquietação interior de querermos ser melhores … e, acrescento, uns para os outros. Na “esperança” de que os paradoxos gerados: guerras, fome, sem abrigo, violência etc., entre outros absurdos, num contexto de desenvolvimento cientifico e tecnológico e, sobretudo das mentalidades, serão de outra ordem.
A mim, dava me jeito que a nova ordem fosse a da festa permanente. A vida seria uma risada total... desculpa a criancice. Aí a serenidade seria a companheira dos espíritos e não existiriam mais les chagrins d’amour.
A festa estaria em tudo e, sobretudo. E, tu já não terias de te preocupar com a tua condição de mulher e, de eventualmente seres agredida por um “amor impulsivo” que não entende a tua condição de indivíduo feminino em liberdade.
Sinto que me crucifiquei com esta abordagem. Mas eu, muitas vezes, sou assim paradoxalmente romântico (...) também no sentido filosófico. 
Fica bem, querida amiga